O dia em que a Noruega mudou

Hoje o post é uma estreia de mais um colaborador. Quem escreve é a Melissa Bender Dellaméa Kaste, que mora na Noruega. A Melissa foi minha colega na faculdade de Comunicação Social na UFSM, em Santa Maria – RS. É uma amiga muito querida, tanto que mantemos nossa amizade desde aquela época. Abaixo ela conta sobre a repercussão do atentado que aconteceu em Oslo, há 1 mês atrás, e as homenagens prestadas às vítimas.

No dia 22 de julho deste ano, durante nossas férias na Suécia, vimos na TV a notícia de uma bomba que explodiu no centro de Oslo. Ainda nem sabíamos muitos detalhes e logo comecei a receber mensagens da família e de amigos perguntando se estávamos bem. Em seguida vimos sobre o ataque no acampamento jovem do partido trabalhista, na ilha de Utøya, e fomos vendo que a situação era muito grave. Resultado: 77 mortos e 90 gravemente feridos.

Desde então eu tenho acompanhado na TV e lido muito sobre o resultado deste terror. Cada vez que leio histórias de jovens que sobreviveram ao massacre do terrorista, Anders Behring Breivik, fico chocada com a frieza deste homem. Um homem que aparentemente parece comum, saudável e da minha idade. Mas essa semana li uma reportagem que me chocou mais ainda. Ele respondeu à pergunta: “Você se arrepende de algo ou se lembra de algo que lhe tocou?” ele responde: “Sim, do rato que matei sem querer durante as preparações para o ataque”. Sabe-se também que a mãe dele estava no centro de Oslo quando a bomba explodiu. Ele disse que estava disposto a sacrificar até a própria mãe pela causa que está lutando.

O terrorista no carro da polícia, sorrindo.

Aliás, a bomba que ele explodiu perto do prédio do primeiro ministro, no centro de Oslo, minutos antes de se dirigir à ilha de Utøya, foi principalmente uma forma de distrair a polícia e acabou matando 8 pessoas.

Os psiquiatras que estão analisando o terrorista, dizem que nunca tinham visto tais habilidades de empatia em um ser humano. Um homem que simplesmente não tem empatia por outros seres humanos. Quando levaram ele de volta à ilha na semana passada, para a reconstrução do crime onde ele matou 69 pessoas (maioria jovens entre 14 e 19 anos), ele disse que o primeiro tiro foi mais difícil, mas que os outros ele entrou em estado de “piloto automático”.

A sua principal justificativa é que, o que ele fez foi “horrível, mas necessário” para iniciar uma guerra na Europa. Ele considera o governo Norueguês como traidor por facilitar a vinda de estrangeiros, principalmente islâmicos ao país. E matando os jovens, que estavam sofrendo “lavagem cerebral” pelo partido trabalhista, iria acabar com o futuro deste partido.

O mundo se mobilizou e a população norueguesa me surpreendeu. Em todas as cidades houveram passeatas pela paz e milhares de pessoas foram às ruas mostrar sua tristeza e apoio às famílias das vítimas. Aqui mesmo em Skien aproximadamente 50.000 pessoas foram às ruas, praticamente toda a população da cidade. Nos discursos do rei, do primeiro ministro e nas entrevistas dos sobreviventes, eles não demonstram raiva, mas solidariedade, compaixão pelas vítimas e familiares. Dizem que não tem como ter raiva de alguém que não é humano.

Milhões de flores e velas deixadas depois das manifestações em Oslo.
Sobrevivente do tiroteio, da cidade de Skien, onde eu moro. Ele se fingiu de morto e ficou horas deitado entre os amigos mortos.

O próprio terrorista ligou para a polícia para se entregar, logo após achar que já havia matado o suficiente na ilha. Não se suicidou, como a maioria deste tipo de assassino no mundo faz. Anders Behring Breivik está preso e isolado. A comida dele é analisada todos os dias por perigo de envenenamento. Ele solicitou um computador para escrever seus pensamentos e DVDs. Mesmo assim, ele considera seu isolamento como um “um sádico método de tortura”.

Hoje, dia 22/08/2011, faz 1 mês que tudo aconteceu e a Noruega fez uma homenagem linda na TV às vítimas do massacre do dia 22 de julho. Familiares e sobreviventes voltaram à ilha no sábado, 20/08, junto com a polícia, par ver onde e como seus queridos foram mortos.

Ao fundo, a ilha de Utøya, a 40 km de distância do centro de Oslo.

Uma das frases que me tocou no discurso do primeiro ministro, Jens Stoltenberg, foi: “se um homem só pode mostrar tanta raiva, imaginem quanto amor podemos mostrar juntos!”

Aqui, pode-se ver quem são as 77 vítimas do massacre deste dia em que a Noruega mudou: viglemmerikke.no

Fonte das fotos: jornais www.vg.no e www.dagbladet.no

6 comentários em “O dia em que a Noruega mudou

  • agosto 22, 2011 em 2:37 pm
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    Que lindo Melissa. Legal o teu relato e por mostrar que apesar de tanta incompreensão e desespero, surge o mais nobre dos sentimentos: amor.

    Nada mais certo e forte para juntar os pedaços de destruição que esse homem causou na Noruega.

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    • agosto 22, 2011 em 7:12 pm
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      Obrigada Patricia!
      Concordo plenamente contigo. Foi um choque muito grande por aqui, mas o amor é o melhor remédio!!

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  • agosto 22, 2011 em 9:24 pm
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    Bah minha mana, muito bom, ótimo!
    Muito comovente, emocionante, palavras bem colocadas e reflexões sábias! Mesmo pra uma brasileira, longe do convívio com a nossa língua há 7 anos…
    Parabéns e obrigada por ser exatamente assim como tu é!
    Beijos, com amor e saudades!

    Aninha, que lindo trabalho, admiro muito o profissional da comunicação, parabéns!
    Tudo de bom sempre e sucesso!
    Beijos

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  • agosto 23, 2011 em 7:21 am
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    Verdade Ana, a Mel soube muito bem contar sobre este dia horrível. E obrigada pleo carinho!!!

    Mel, gostei mesmo do post. A gente fica se perguntando até onde uma pessoa é capaz de chegar com este tipo de atitude né? Que tipo de criatura pode ter tanto ódio no coração?? Dá um medo grande disso tudo, destas revoltas, destas ações ridículas onde tentam justificar como sendo necessárias para a humanidade.

    Precisamos plantar amor!!! Sempre!!!
    Beijos e obrigada por participar do blog!

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  • agosto 23, 2011 em 10:27 am
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    Obrigada minha mAna e amiga Ana Luiza!

    Pois é, me inspirei e resolvi dividir um pouco sobre o que estamos vivendo diariamente aqui na Noruega, depois deste episódio.

    Hoje estou em Oslo, pois vim buscar meu título de eleitor aqui no Consulado e quero ir visitar o local onde a bomba explodiu. No caminho pra cá, eu disse pro Terje no carro: tomara que não resolvam explodir mais uma bomba logo hoje! Deus me livre, mas nunca se sabe, pois não acredito que haja somente um louco como este por aqui, que queira continuar “lutando” pela causa deles.
    O Terje não acredita que possa acontecer de novo, então fiquem tranquilas 🙂

    Adorei escrever pro teu blog amiga. E parabéns de novo pela iniciativa!

    Beijos

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    • agosto 23, 2011 em 2:54 pm
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      Ai Mel….não pensa uma coisa destas!
      Credo!

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