A saga do terremoto no Japão, aos olhos de uma brasileira

Assim que o terremoto do Japão aconteceu, escrevi para a Karina (nossa colaboradora) para saber como ela estava e se ela gostaria de escrever um post sobre o assunto. Semana passada, recebi o texto abaixo relatando a tragédia aos olhos dela, uma brasileira.

Muito interessante e cheio de aprendizados desse povo cheio de sabedoria que são os japoneses.

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A Saga do Terremoto…

Acabei de sentar pra escrever este post e, sem saber por onde começar, decidi que vou compartilhar com vocês a minha experiência pessoal já que todos os fatos nós ficamos sabendo pela mídia…

Eu moro em Tóquio, há 300km de onde foi o epicentro do terremoto e, por isso nós sentimos bem menos o tremor.

Na sexta-feira eu e meu marido tínhamos saído pra almoçar juntos, as 2:40pm estávamos numa loja comprando o meu presente de aniversario, quando o vendedor olhou pra gente e disse que estava começando a ter um terremoto. Morando no Japão, você se acostuma a sentir tremores de vez em quando e como não estava dando pra sentir quase nada, ficamos tranqüilos. Normalmente, esses tremores vem e passam rapidinho, questão de segundos… mas nesse dia, ao invés de diminuir a intensidade, ela foi aumentando e as pessoas na loja começaram a se movimentar. Estávamos no 5º andar de um prédio relativamente antigo e como todo japonês já sabe direitinho o que fazer, nós fomos seguindo as orientações deles.

A primeira coisa que eles fizeram foi abrir as portas e cada um foi pra debaixo de um batente. Eu e o Elton estávamos debaixo da porta de emergência e ali nós ficamos até o prédio parar de mexer.

Eu vou confessar que eu não tinha imaginado a gravidade do tremor e vou explicar o porque. Nós moramos no segundo andar de um prédio novo, então não sentimos praticamente nenhum terremoto. Minhas amigas que moram nos andares mais altos, normalmente comentam que teve terremoto, mas por estarmos embaixo, não sentimos nada. A minha conclusão na hora foi que eu estava sentindo o tremor porque estávamos nesse prédio antigo e assumi que era assim que elas sentiam os tremores…

Mas depois que tudo se acalmou, saímos da loja e fomos pra rua pra pegar o nosso carro que estava parado num estacionamento no quarteirão de cima. Quando saímos, vimos que as pessoas estavam todas do lado de fora, tentando ligar umas pras outras e daí que percebemos que os nossos celulares não estavam funcionando. Continuamos andando e vimos que os prédios estavam vazios, algumas pessoas usando capacetes e ninguém ia pra lugar algum. Todos esperavam pacientemente por alguma coisa… como não falamos japonês, não entendíamos os anúncios que os seguranças faziam, e resolvemos esperar também. Ficamos parados por mais de uma hora e quando vimos alguns movimentos, pegamos o carro e fomos pra casa.

Quando chegamos em casa, ainda por fora da situação, vimos que a movimentação continuava… Subimos pra casa, mas assim que chegamos, sentimos o apartamento tremendo e nessa hora já sabíamos que o mais certo era descer novamente… encontramos uns amigos e todos já tinham a mochila de emergência e com a nossa experiência inexistente, a única coisa que pegamos foram os nossos documentos…

Enfim, ficamos nessa espera, veio o anuncio do Tsunami mas sabíamos que estávamos longe o suficiente pra não termos que nos preocupar. Até ai já estávamos de volta pra casa, alguns amigos conosco, já que estamos perto do chão e eles não queriam ficar nos andares mais altos. Até vimos uma boa oportunidade de negócio: alugar quartos para quem não queria ficar no alto, mas no final o nosso lado bondoso falou mais alto e deixamos eles acamparem de graça mesmo. 🙂

A primeira noite foi terrível… sentíamos o apartamento tremer a cada hora. Como o prédio tem um sistema de amortecimento de tremor, nós ficamos ouvindo as molas se acomodarem por minutos depois que o terremoto passou.

Dia seguinte veio a notícia dos problemas nas Usinas Nucleares e foi aí que as preocupações aumentaram. Sabíamos que o terremoto assusta, mas não corríamos risco, pois moramos num dos prédios mais seguros de Tóquio. Mas radiação é um problema diferente. Tentamos não tomar nenhuma decisão precipitada, mas a conclusão final foi deixar o País.

Esperamos e torcemos pra que todos os problemas sejam controlados, não por nós, mas pela população japonesa que nasceu, cresceu e vai lutar até o fim pelo País deles.

E mais uma vez a ordem e disciplina do japonês me surpreendeu. Numa situação tão difícil, eles mantiveram a ordem, respeito pelo próximo e calma.

No dia do terremoto, como os transportes públicos pararam, quem conseguiu, pegou um táxi pra ir pra casa. Então, o transito estava parado mas não se ouvia nenhuma buzina, ninguém tentado ultrapassar pelo acostamento. Os que não conseguiram transporte, simplesmente caminharam. Ninguém furtou bicicleta, carro ou apedrejou trem revoltado por eles não funcionarem.

Enfim, eu gostaria de terminar demonstrando o meu respeito por esse povo que já passou por varias dificuldades e superaram todas. E hoje, mesmo correndo riscos de radiação, estão batalhando para trazer qualidade de vida para toda a população.

Para terminar, aqui vai uma sugestão pra quem um dia for morar no Japão: as torres residenciais são lindas, a vista maravilhosa, mas numa emergência você quer estar perto do chão. Não caia na tentação e fique com o 2º andar!

Um comentário em “A saga do terremoto no Japão, aos olhos de uma brasileira

  • abril 7, 2011 em 12:34 am
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    Oi Karina , gostaria de saber se vc ainda esta no Japao ou foi p/ o Brasil?
    Estou com a passagem comprada p/ ir ao Japao no dia 29 de Maio ,espero poder ir . Como e que esta Tokio agora com tudo que continua acontecendo . Vamos a Tokio e p/ o Sul do pais .Com muita esperanca no coracao para que tudo melhore cada dia mais assim o povo japones consiga se recuperar dessa tragedia .
    Abracos ,com carinho ,
    Marilene ( grupo brasilleiro de Scarsdale )

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    • abril 7, 2011 em 2:55 am
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      Oi Flavia, oi Marilene!
      Obrigada pelos comentarios…

      Marilene, nos voltamos pros EUA, mas pelo que tenho conversado com as minhas amigas, a vida em Toquio esta comecando a voltar ao normal. Tem alguns produtos faltando nos supermercados e ‘after shock’ tambem acontecem durante o dia… Agora no Sul tenho certeza que esta tudo normal e com menos risco tambem… Espero que voce possa aproveitar a sua viagem!

      Beijos pra voces!

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  • abril 7, 2011 em 12:53 am
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    Parabens pelo post! E pelo visto voce tambem mostrou muita calma e paciencia, alem de compaixao!!!
    A serenidade e calma deles impressionou o mundo!
    Forca para ti e teu marido!
    Abracos

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  • abril 7, 2011 em 3:06 pm
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    Karina, quando aconteceu esta tragédia, só conseguia pensar em vc. Apesar de não nos conhecermos pessoalmente, neste momento triste a gente quer é proteger quem é “próximo” de nós. Ainda bem que vocês não sofreram nada além do susto. E os japoneses um exemplo de serenidade.
    Abraços,

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    • abril 7, 2011 em 11:20 pm
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      Oi Ana! O susto e a maratona pra sair de la foram grandes, mas o que importa eh que estamos bem…. Fiquei triste e preocupada com o terremoto de hoje, espero que nao tenha causado mais nenhum dano grave… Beijos!

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  • abril 8, 2011 em 11:57 am
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    Karina,
    Acho que corre um pouco do “sangue Japonês” em suas veias, visto sua paz de espírito, serenidade e educação. Daqui, estávamos preocupados não apenas com o povo do Japão mas pedíamos a Deus pela segurança e saúde de todos e, principalmente, daqueles que amamos…vocês estavam em nossas orações. Fico feliz que estejam bem! Até qualquer hora. Abraço carinhoso!

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  • abril 10, 2011 em 1:26 am
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    Sandra querida… muito obrigada pelo carinho… nos vemos na minha proxima visita ao Brasil. Beijos

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  • junho 1, 2012 em 4:13 am
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    Moro na China e tenho muitas amigas japonesas no dia do terremoto estava no Brasil e quando vi as noticias fiquei suuper preocupada, entao fui procurar saber noticias delas e para minha surpresa pareceu que eu estava mais preocupada do que elas, entao depois de um tempo quando eu ja havia voltado pra China e tudo passou fui obrigada a questionar uma delas: Como pode eu la no Brasil parecia estar mais preocupada que voce que eh japonesa e sua familia mora la? E ela responde que a familia dela estava bem e que eles ja estao acostumados com os tremores (tipo a vida continua), pra gente isso pode parecer um pouco frio, mas agora morando aqui na China convivendo com japoneses e conhecendo um pouco melhor a historia deles compreendo, admiro e gosto muito desse povo que no primeiro momento parece super fechado mas que tbem chora, tem muito sentimento, eh forte e tem a capacidade de nao demonstar isso.

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    • junho 1, 2012 em 10:05 am
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      Nossa Bianca…gostei do que vc escreveu. A gente não tem noção do quanto este povo tem força e garra!!

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